

Quando uma criança começa a apresentar dificuldades na escola, é comum que a família procure uma explicação rápida. "Ele não presta atenção", "ela não se esforça", "ele tem preguiça de estudar" são algumas das interpretações que podem aparecer antes mesmo de se entender o que está acontecendo. Em outros casos, os pais já chegam ao consultório preocupados com a possibilidade de existir algum transtorno.
Entre essas duas situações existe um caminho importante: compreender como aquela criança aprende.
É nesse campo que atua o psicopedagogo. De acordo com a Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), a Psicopedagogia tem como objeto de estudo a aprendizagem humana e reúne conhecimentos de diferentes áreas para compreender e intervir nos processos de aprendizagem. A atuação pode acontecer tanto em contextos clínicos quanto institucionais, como escolas e outras organizações.
Uma das confusões mais comuns é imaginar que o psicopedagogo está ali para ensinar novamente aquilo que a criança não aprendeu na escola. Embora o trabalho possa envolver atividades relacionadas às habilidades acadêmicas, sua atuação vai além de reforçar conteúdos.
O profissional procura compreender como a pessoa aprende, quais obstáculos estão interferindo nesse processo e que estratégias podem favorecer a aprendizagem. Para isso, considera aspectos cognitivos, emocionais, sociais e pedagógicos, entre outros fatores que podem influenciar a relação da criança com o aprender.
Isso significa que duas crianças com a mesma dificuldade aparente podem precisar de abordagens completamente diferentes. Uma pode ter dificuldade para compreender determinados conteúdos; outra pode até dominar o conteúdo, mas encontrar obstáculos para manter a atenção, organizar as informações ou lidar com a ansiedade diante das atividades escolares.
O trabalho psicopedagógico começa justamente quando se deixa de olhar apenas para o resultado e passa a investigar o processo.
Não existe uma lista de sintomas que determine, sozinha, que uma criança precisa de acompanhamento psicopedagógico. A decisão costuma surgir a partir da observação de dificuldades persistentes ou de situações em que família e escola percebem que os recursos utilizados até aquele momento não estão sendo suficientes.
Dificuldades recorrentes na leitura, escrita ou matemática podem ser motivo para uma investigação mais cuidadosa. O mesmo vale para problemas de organização, atenção, compreensão de instruções ou realização de tarefas, especialmente quando começam a interferir de maneira significativa na vida escolar e na autoestima da criança.
Mas procurar um psicopedagogo não significa assumir que existe necessariamente um transtorno de aprendizagem.
Na realidade, um dos objetivos do trabalho é justamente compreender o que está por trás da dificuldade antes de tirar conclusões. A ABPp estabelece entre os objetivos da atividade psicopedagógica a compreensão e proposição de ações diante das dificuldades de aprendizagem, além da promoção da aprendizagem e da contribuição para processos de inclusão escolar e social.
A relação entre psicopedagogo, família e escola pode ser especialmente importante quando uma criança apresenta dificuldades de aprendizagem.
O professor acompanha o aluno em um ambiente coletivo, observa seu desempenho em diferentes atividades e consegue perceber como ele responde às estratégias utilizadas em sala. Já a família conhece aspectos da rotina e do comportamento que podem não aparecer no ambiente escolar.
O psicopedagogo pode contribuir justamente para aproximar essas diferentes perspectivas. Na atuação institucional, a Psicopedagogia também se dedica aos processos de aprendizagem dentro das instituições e pode analisar aspectos didático-metodológicos e da própria dinâmica escolar que interferem nesse processo.
Isso é importante porque uma dificuldade de aprendizagem não deve ser automaticamente atribuída à criança. Às vezes, é preciso olhar também para a maneira como determinado conteúdo está sendo apresentado, para as condições em que a criança está aprendendo e para as estratégias que estão sendo utilizadas.
A escola, portanto, não é apenas o lugar onde o problema aparece. Pode ser uma parte fundamental da solução.
Não. Embora exista uma área de interseção entre diferentes profissionais que trabalham com crianças e adolescentes, cada especialidade possui formação, objetivos e campos de atuação próprios.
A Psicopedagogia tem como foco os processos de aprendizagem e possui caráter interdisciplinar, articulando conhecimentos de áreas como Psicologia, Pedagogia, Fonoaudiologia e outras áreas relacionadas.
Dependendo da situação encontrada, o psicopedagogo pode trabalhar em conjunto com psicólogos, fonoaudiólogos, médicos, professores e outros profissionais. Essa atuação conjunta é particularmente importante quando a dificuldade apresentada pela criança envolve diferentes dimensões do desenvolvimento.
Uma criança com dificuldade para aprender a ler, por exemplo, pode precisar de uma investigação que considere não apenas suas habilidades acadêmicas, mas também aspectos de linguagem, atenção, visão, audição, desenvolvimento cognitivo e questões emocionais.
Por isso, o psicopedagogo não precisa ser visto como o profissional que "vai descobrir o problema". Seu trabalho pode ser justamente contribuir para entender melhor o problema e construir caminhos de intervenção, em diálogo com os demais envolvidos.
Talvez uma das contribuições mais importantes da Psicopedagogia seja mudar a pergunta.
Em vez de olhar apenas para aquilo que a criança não consegue fazer, o profissional procura compreender também aquilo que ela consegue, como utiliza seus recursos e quais condições favorecem seu aprendizado.
Essa perspectiva pode fazer diferença na maneira como a própria criança passa a enxergar suas dificuldades. Uma sequência de notas baixas, broncas e comparações pode fazer com que ela construa a ideia de que "não é inteligente" ou "não consegue aprender".
Quando os adultos conseguem compreender melhor o processo, a intervenção deixa de ser apenas uma tentativa de fazer a criança alcançar determinado resultado e passa a considerar como ajudá-la a aprender de maneira mais adequada às suas necessidades.
É também por isso que a Psicopedagogia pode ter um papel importante na inclusão e na construção de ambientes de aprendizagem mais atentos à diversidade. As diretrizes da ABPp destacam justamente a aprendizagem como um direito de todos e a necessidade de articulação com profissionais da Educação e da Saúde.
Se uma dificuldade escolar persiste, começa a gerar sofrimento, interfere na rotina ou chama a atenção tanto da família quanto da escola, vale conversar sobre o assunto. O primeiro passo não precisa ser escolher imediatamente um profissional ou buscar um diagnóstico, mas reunir informações e entender melhor o que está acontecendo.
Em alguns casos, o psicopedagogo será um dos profissionais indicados para participar dessa investigação. Em outros, poderá ser necessário envolver também profissionais de saúde ou da educação. O mais importante é evitar tanto a negligência quanto a pressa em colocar um rótulo na criança.
Dificuldade para aprender não é sinônimo de falta de capacidade. Às vezes, é um sinal de que precisamos descobrir uma maneira diferente de ensinar, aprender e acompanhar aquela criança.
E quanto mais cedo os adultos conseguem fazer essa pergunta, maiores são as possibilidades de encontrar um caminho.
Acreditamos que ninguém nasce sabendo ser pai. A paternidade também envolve aprender a observar, compreender e acompanhar o desenvolvimento dos filhos.
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Porque entender como nossos filhos aprendem também é uma forma de cuidar.





