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Por que Paternidade também é assunto para a empresa

Pais não deixam de ser pais quando entram no escritório. Falar sobre paternidade no ambiente de trabalho é discutir cultura, saúde, equilíbrio e as condições que permitem que homens participem de verdade da vida dos filhos.

16/08/2026 às 20h42 Atualizada em 16/08/2026 às 21h16
Por: Escola da Paternidade
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Imagem: Getty Images - O afastamento do trabalho por motivo de filho no Brasil engloba regras específicas na CLT, como a licença-paternidade padrão de 5 dias, o direito a 1 dia por ano para acompanhar filho de até 6 anos em consulta médica, e possíveis ex
Imagem: Getty Images - O afastamento do trabalho por motivo de filho no Brasil engloba regras específicas na CLT, como a licença-paternidade padrão de 5 dias, o direito a 1 dia por ano para acompanhar filho de até 6 anos em consulta médica, e possíveis ex

Durante muito tempo, falar sobre filhos no ambiente de trabalho parecia ser um assunto principalmente relacionado às mulheres. A preocupação com licença-maternidade, amamentação, creche e retorno ao trabalho fazia parte das discussões sobre carreira feminina, enquanto dos homens se esperava, sobretudo, que continuassem trabalhando normalmente.

Essa divisão revela uma ideia antiga sobre a própria paternidade. Como se o nascimento de um filho mudasse radicalmente a rotina profissional da mãe, mas quase nada precisasse mudar na vida do pai.

Só que isso está mudando. Homens querem participar mais da criação dos filhos, acompanhar consultas, reuniões escolares, apresentações, aniversários e momentos que não voltam. E, para que isso seja possível, não basta que a família discuta uma nova divisão de responsabilidades em casa. As empresas também precisam reconhecer que seus funcionários têm uma vida para além do trabalho.

O pai não deixa de ser pai quando chega ao trabalho

Imagine um funcionário que recebe uma ligação da escola durante o expediente porque o filho está passando mal. Ou um pai que precisa acompanhar uma consulta médica. Ou ainda alguém que gostaria de participar da apresentação escolar do filho, marcada justamente no horário de uma reunião.

Em muitas empresas, essas situações ainda são tratadas como interrupções ou problemas pessoais que precisam ser resolvidos sem afetar o trabalho.

Mas talvez seja hora de olhar para elas de outra maneira.

Um profissional pode ser comprometido com sua empresa e, ao mesmo tempo, ser um pai presente. As duas coisas não deveriam ser tratadas como incompatíveis.

Isso não significa que toda demanda familiar possa ser atendida imediatamente ou que as responsabilidades profissionais deixem de existir. Significa reconhecer que as pessoas não deixam sua vida pessoal do lado de fora quando passam pela porta do escritório.

A questão é como as empresas constroem condições para que trabalho e família possam coexistir de maneira saudável.

A cultura da empresa também ensina o que significa ser pai

Políticas oficiais são importantes, mas a cultura cotidiana talvez seja ainda mais poderosa.

Uma empresa pode oferecer licença-paternidade, mas se o funcionário que decide realmente utilizá-la passa a ser visto como alguém menos comprometido, existe uma contradição.

Pode existir flexibilidade para situações familiares, mas se o funcionário acredita que será prejudicado na carreira sempre que precisar dela, provavelmente continuará evitando pedir.

É nesse ponto que a conversa sobre paternidade deixa de ser apenas uma discussão sobre benefícios e passa a ser uma discussão sobre cultura organizacional.

Que tipo de comportamento a empresa valoriza? O funcionário que trabalha até tarde todos os dias é visto como mais comprometido? Um pai que precisa sair no horário para buscar o filho é percebido como menos disponível? Líderes conseguem falar abertamente sobre suas famílias ou ainda existe a expectativa de que assuntos pessoais não atravessem a vida profissional?

As respostas dizem muito sobre o ambiente que está sendo construído.

A paternidade também pode fazer parte das políticas de pessoas

Falar sobre paternidade nas empresas não significa criar um "programa para pais" apenas para cumprir uma tendência de recursos humanos.

Pode significar rever práticas que já existem e perguntar se elas realmente consideram as diferentes responsabilidades que os funcionários têm fora do trabalho.

Licença-paternidade é uma delas. No Brasil, a Constituição estabelece a licença-paternidade como direito dos trabalhadores, e o Programa Empresa Cidadã permite a ampliação da licença-paternidade para empregados das empresas participantes. (planalto.gov.br)

Mas existem outras possibilidades: horários mais flexíveis quando a atividade permitir, modelos de trabalho que considerem diferentes necessidades familiares, comunicação clara sobre os direitos dos pais, apoio no retorno após o nascimento de um filho e formação de lideranças para lidar melhor com essas situações.

Não existe uma fórmula única. Uma fábrica, um hospital, uma empresa de tecnologia e um escritório de advocacia têm realidades completamente diferentes.

O ponto de partida é reconhecer que a experiência da paternidade também faz parte da experiência profissional de muitos homens.

E por que isso interessa às empresas?

Porque discutir paternidade também é discutir pessoas.

Um funcionário que vive permanentemente em conflito entre as exigências do trabalho e a necessidade de estar presente na vida dos filhos pode experimentar estresse, culpa e desgaste. A Organização Mundial da Saúde reconhece que condições inadequadas de trabalho podem afetar a saúde mental e que ambientes de trabalho saudáveis podem favorecer proteção e bem-estar. (who.int)

Além disso, empresas que discutem parentalidade podem contribuir para uma divisão mais equilibrada do cuidado dentro das famílias.

Quando apenas as mulheres são incentivadas a adaptar sua carreira por causa dos filhos, a desigualdade tende a se perpetuar. Quando homens também são autorizados culturalmente a exercer plenamente a paternidade, o cuidado deixa de ser visto como uma responsabilidade predominantemente feminina.

Essa mudança pode beneficiar mães, pais e, principalmente, os filhos.

O pai que participa da vida do filho também está construindo uma sociedade diferente

Talvez essa seja a parte menos óbvia dessa discussão.

Uma empresa que permite que um homem participe da reunião escolar do filho não está apenas resolvendo um problema de agenda. Está ajudando a normalizar a ideia de que cuidar dos filhos também é responsabilidade dos homens.

Quando um diretor fala abertamente sobre precisar buscar o filho na escola, outro funcionário pode se sentir mais à vontade para fazer o mesmo. Quando uma liderança respeita o período de licença-paternidade, transmite uma mensagem para toda a equipe. Quando a empresa não trata a família como um obstáculo à carreira, cria-se outra relação entre trabalho e vida pessoal.

A mudança cultural muitas vezes começa em situações aparentemente pequenas.

Uma reunião que pode ser remarcada.

Uma saída no horário combinado.

Uma licença respeitada.

Uma liderança que pergunta "como está seu filho?" e realmente quer ouvir a resposta.

Não se trata de transformar a empresa em uma extensão da família. Trata-se de reconhecer que o funcionário já chega à empresa sendo pai, mãe, filho, companheiro, cuidador e tantas outras coisas.

Talvez a pergunta que as empresas precisem fazer seja outra

Durante muito tempo, a pergunta foi: "Como fazer o funcionário conciliar trabalho e família?"

Talvez possamos começar a perguntar:

"Que condições estamos criando para que as pessoas consigam trabalhar e, ao mesmo tempo, viver as responsabilidades que têm fora daqui?"

Essa mudança de perspectiva é importante.

Porque falar de paternidade nas empresas não significa diminuir a importância do trabalho. Significa reconhecer que uma carreira faz parte de uma vida, e não o contrário.

E um pai que consegue estar presente na vida dos filhos não é necessariamente um profissional menos comprometido.

Pode ser simplesmente alguém que encontrou uma forma mais sustentável de ser as duas coisas.


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