

Quando perguntamos a um pai ou a uma mãe qual é o papel da escola, provavelmente a primeira resposta será simples: ensinar. É na escola que a criança aprende a ler, escrever, fazer contas, conhece História, Ciências, Geografia e desenvolve uma série de conhecimentos importantes para sua formação.
Mas a vida escolar não acontece apenas diante de um quadro ou de uma apostila. A criança passa muitas horas do dia naquele ambiente, convive com outras pessoas, aprende a lidar com regras, diferenças, conflitos, responsabilidades e frustrações. A escola participa, portanto, de uma etapa importante da formação de uma pessoa.
Isso não significa que a escola deva substituir a família. Nem que os professores tenham que assumir funções que pertencem aos pais. Significa entender que educação e escolarização são coisas relacionadas, mas não são exatamente a mesma coisa.
Aprender matemática, português ou Ciências é parte fundamental da experiência escolar. Mas uma criança também aprende quando precisa esperar sua vez, trabalhar em grupo, ouvir uma opinião diferente da sua, resolver um conflito ou lidar com a frustração de não conseguir algo na primeira tentativa.
Essas experiências não aparecem necessariamente no boletim, mas fazem parte do desenvolvimento.
A escola também pode ajudar a criança a descobrir interesses e habilidades que talvez não aparecessem em outros ambientes. Um professor pode perceber uma facilidade para desenhar, uma curiosidade especial por animais, uma capacidade de liderança ou uma dificuldade que precisa ser acompanhada com mais atenção.
Por isso, reduzir a escola ao desempenho acadêmico é enxergar apenas uma parte do que acontece ali.
Essa é provavelmente uma das questões que mais geram confusão.
A escola tem responsabilidade pela educação escolar e participa da formação integral da criança, mas isso não significa que deva assumir sozinha a educação moral, os limites e os valores que serão construídos dentro da família.
Ensinar uma criança a respeitar os colegas é também uma responsabilidade da escola. Ensinar que ela não pode agredir outra pessoa faz parte da convivência escolar. Mas valores como respeito, responsabilidade, empatia e consideração pelo outro também precisam ser trabalhados diariamente em casa.
O mesmo vale para hábitos básicos de convivência. Uma criança que aprende que pode tratar mal um professor porque "a escola é paga para ensinar" recebe uma mensagem muito diferente daquela transmitida por uma família que orienta o filho a respeitar os profissionais que trabalham com ele.
A escola e a família não precisam fazer exatamente a mesma coisa. Precisam caminhar na mesma direção.
Muitos pais têm uma relação bastante específica com a escola: recebem mensagens quando existe algum problema, comparecem às reuniões obrigatórias e acompanham as notas. Fora disso, a instituição parece existir em um universo separado da família.
Esse distanciamento pode ser prejudicial.
A escola observa aspectos da criança que os pais muitas vezes não conseguem perceber em casa. O professor acompanha como ela se relaciona com outras crianças, como reage a desafios, como participa das atividades e como seu comportamento evolui ao longo do tempo.
Por outro lado, a família conhece aspectos da criança que dificilmente aparecem na sala de aula. Mudanças na rotina, acontecimentos familiares, questões de saúde, alterações no sono ou situações emocionais podem ajudar a explicar comportamentos observados pelos professores.
Quando essas informações circulam de maneira respeitosa, todos ganham.
Foi justamente essa perspectiva que apareceu no artigo da Revista Escola da Paternidade sobre dificuldades de aprendizagem: a escola não deve ser tratada como culpada nem como responsável por resolver tudo sozinha, mas pode ser uma parceira fundamental para identificar dificuldades e construir caminhos de apoio.
Essa talvez seja uma das confusões mais importantes que os pais precisam enfrentar.
A escola pode ensinar, orientar, acolher, estabelecer regras de convivência e participar do desenvolvimento da criança. Mas ela não substitui a presença dos pais.
Não cabe ao professor ensinar sozinho aquilo que deveria ser construído também dentro de casa. A escola pode trabalhar respeito, mas não consegue compensar completamente a ausência de limites familiares. Pode incentivar a leitura, mas dificilmente conseguirá criar sozinha uma criança que convive com livros e conversas sobre conhecimento em casa.
Também não deveria ser responsabilidade da escola resolver todos os conflitos familiares ou assumir o papel de principal referência emocional da criança.
Isso não diminui a importância da instituição. Pelo contrário. Coloca cada parte no lugar certo.
A parceria não significa concordar sempre.
Pais podem questionar uma decisão da escola. Professores podem discordar da maneira como determinada situação está sendo conduzida em casa. A escola pode estabelecer regras que a família considera inadequadas, assim como os pais podem apresentar necessidades que a instituição precisa considerar.
O problema começa quando a criança é colocada no meio desse conflito.
"Não faça isso porque seu pai não gosta."
"Na escola eles não sabem de nada."
"Seu professor está errado."
Frases desse tipo podem fazer com que a criança passe a enxergar família e escola como lados opostos.
O diálogo entre adultos precisa acontecer, inclusive quando existe discordância. E, quando necessário, é possível buscar coordenação pedagógica, orientação educacional ou outros canais de mediação.
O objetivo não deveria ser descobrir quem ganhou a discussão.
Deveria ser descobrir o que é melhor para a criança.
Participar não significa fazer a tarefa pelo filho, controlar cada nota ou cobrar diariamente explicações sobre tudo o que aconteceu na escola.
Participar pode ser perguntar como foi o dia, demonstrar interesse pelo que está sendo aprendido, comparecer às reuniões, conhecer os professores, acompanhar mudanças de comportamento e criar em casa um ambiente em que estudar seja valorizado.
Também significa ensinar a criança a assumir progressivamente suas próprias responsabilidades.
Um pai que passa a noite fazendo o trabalho escolar do filho pode até garantir uma boa nota naquela atividade. Mas talvez esteja ensinando, sem perceber, que o adulto sempre estará disponível para resolver aquilo que deveria ser responsabilidade da criança.
A participação dos pais precisa acompanhar a idade e a autonomia dos filhos.
A escola ensina conteúdos, mas não apenas conteúdos. Ela cria experiências de aprendizagem, promove convivência, estabelece regras, acompanha o desenvolvimento escolar e pode ajudar a identificar dificuldades e potencialidades.
A família, por sua vez, oferece vínculos, referências, valores, cuidado e acompanhamento cotidiano.
Nenhuma das duas instituições precisa ocupar o lugar da outra.
A criança precisa das duas.
E talvez essa seja a resposta mais importante para a pergunta que parece tão óbvia no início desta matéria: o papel da escola não é criar os filhos pelos pais, assim como o papel da família não é transferir para a escola toda a responsabilidade pela educação.
Quando família e escola compreendem seus papéis e conseguem trabalhar juntas, a criança ganha algo que nenhuma delas poderia oferecer sozinha: uma rede de adultos que observa, orienta, ensina e cuida.
É nessa parceria, muito mais do que na cobrança de responsabilidades, que a educação pode encontrar um caminho mais saudável.
A Escola da Paternidade acredita que criar e educar filhos é uma responsabilidade compartilhada por toda a sociedade. Família, escola e comunidade têm papéis diferentes, mas podem construir juntos ambientes mais seguros e favoráveis ao desenvolvimento das crianças.
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Porque educar uma criança é uma tarefa grande demais para ser colocada sobre os ombros de uma única pessoa.





