Durante alguns anos, a pergunta parecia ser outra: como ensinar as crianças a usar a tecnologia? Hoje, uma pergunta mais difícil começa a ganhar espaço entre famílias, escolas e governos: será que crianças deveriam ter acesso tão cedo a determinadas tecnologias?
A mudança de perspectiva é importante. O celular deixou de ser apenas uma ferramenta de comunicação e passou a concentrar entretenimento, jogos, vídeos, redes sociais, mensagens e uma quantidade praticamente infinita de estímulos. Para uma criança, isso significa ter no bolso um dispositivo capaz de disputar sua atenção durante praticamente todo o dia.
Não por acaso, diferentes países começaram a discutir limites mais rígidos para esse acesso. A Austrália foi mais longe e, desde dezembro de 2025, passou a exigir que plataformas de redes sociais tomem medidas para impedir que menores de 16 anos mantenham ou criem contas. É uma das primeiras experiências nacionais desse tipo no mundo.
A discussão está longe de ser consensual. Há dúvidas sobre fiscalização, privacidade, eficácia e até sobre a capacidade de uma proibição acompanhar a velocidade com que crianças encontram maneiras de contorná-la. Dados recentes da própria Austrália mostram que a implementação ainda enfrenta dificuldades.
Mas o movimento revela algo importante: a sociedade começou a questionar se colocar uma criança diante de uma tela é uma decisão que deve ser tratada apenas como escolha individual da família.
O celular entrou cedo demais na infância?
No Brasil, o próprio governo federal passou a reunir orientações específicas sobre o uso de telas. O guia oficial recomenda que crianças menores de 2 anos não sejam expostas a telas, salvo situações específicas como videochamadas com familiares acompanhadas por um adulto. Para crianças maiores, as recomendações estabelecem limites progressivos de tempo e enfatizam a importância de equilibrar o uso digital com sono, atividade física, convivência e outras experiências.
Mais recentemente, a orientação brasileira também passou a abordar especificamente o smartphone. O guia recomenda que crianças antes dos 12 anos não tenham aparelho celular próprio e afirma que, quanto mais tarde ocorrer a aquisição de um dispositivo próprio, melhor.
Isso não significa que tecnologia seja inimiga da infância.
Uma criança pode aprender, pesquisar, conversar com familiares que moram longe, produzir conteúdo, brincar e desenvolver habilidades utilizando dispositivos digitais. O problema aparece quando o celular começa a ocupar espaços que deveriam continuar existindo: o brincar, a conversa, o movimento, o tédio, a leitura, o sono e a convivência.
Não se trata apenas de quanto tempo a criança fica diante da tela, mas também do que está deixando de fazer por causa dela.
E as redes sociais?
Aqui a discussão fica ainda mais complexa.
Uma criança que assiste a um desenho em uma televisão da sala está diante de uma tela. Mas isso é muito diferente de uma criança que passa horas em uma plataforma desenhada para recomendar continuamente novos conteúdos, estimular interações e manter o usuário conectado.
As redes sociais acrescentam outras questões: exposição pública, comparação social, comentários de desconhecidos, publicidade direcionada, mecanismos de recompensa, conteúdos inadequados e a possibilidade de contato com pessoas que a criança não conhece.
A preocupação deixou de ser apenas dos pais. Reguladores de diferentes países passaram a questionar o desenho dessas plataformas e a responsabilidade das empresas pela proteção dos usuários menores de idade.
Na Austrália, por exemplo, a restrição para menores de 16 anos não significa simplesmente que "a criança está proibida de usar internet". A regra mira determinadas plataformas e transfere para as empresas a obrigação de tomar medidas razoáveis para impedir contas de menores de 16 anos.
É uma diferença importante.
A discussão não é sobre acabar com a internet para crianças. É sobre decidir quanto da internet uma criança deveria ter acesso e em que idade.
O Brasil também começou a colocar limites
O Brasil deu um passo importante nessa direção quando aprovou a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de aparelhos eletrônicos pessoais por estudantes durante as aulas, o recreio e os intervalos em todas as etapas da educação básica. A legislação vale para escolas públicas e privadas.
É uma mudança significativa.
Até pouco tempo, a discussão sobre celular na escola dependia principalmente das regras de cada instituição. Agora existe uma orientação nacional que estabelece a restrição, com exceções para situações específicas e para usos pedagógicos autorizados pelos profissionais de educação.
E talvez o detalhe mais interessante esteja no recreio.
Porque a discussão não é apenas sobre impedir que o celular atrapalhe uma aula de matemática. É também sobre o que acontece quando uma criança tem alguns minutos livres.
Ela conversa?
Brinca?
Corre?
Inventa uma brincadeira?
Fica olhando para a tela?
O recreio é um espaço importante de convivência. É quando as crianças negociam regras, fazem amizades, resolvem pequenos conflitos e experimentam diferentes formas de interação. Tirar o celular desse momento pode significar devolver à infância uma experiência que estava sendo ocupada pelo aparelho.
A escola não pode resolver sozinha
A proibição do celular nas escolas representa um avanço, mas seria um erro imaginar que ela resolve o problema.
Uma criança pode passar cinco horas na escola sem celular e receber o aparelho assim que entra no carro.
Pode ficar sem redes sociais durante o período escolar e passar a tarde inteira conectada em casa.
Pode aprender na escola que existem limites para o uso da tecnologia e encontrar pais que não conseguem estabelecer nenhum limite em casa.
Por isso, a mudança precisa acontecer também dentro das famílias.
O próprio Brasil avançou nessa discussão com o ECA Digital, a Lei nº 15.211/2025, que entrou em vigor em 17 de março de 2026 e estabeleceu novas regras para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital. A legislação abrange redes sociais, jogos, aplicativos, plataformas de vídeo e outros serviços digitais.
Entre as medidas estão mecanismos de proteção, supervisão parental e regras relacionadas à verificação de idade. Para menores de 16 anos, o uso de redes sociais passou a envolver vinculação das contas aos responsáveis, permitindo maior acompanhamento familiar.
Ou seja, o Brasil não está simplesmente dizendo às crianças para "largarem o celular".
Está começando a construir uma política de proteção digital da infância.
Mas proibir resolve?
Essa talvez seja a pergunta mais importante.
A experiência internacional mostra que não existe uma resposta simples. A Austrália, por exemplo, está enfrentando dificuldades para fazer cumprir sua restrição aos menores de 16 anos, e especialistas continuam discutindo se mecanismos de verificação de idade conseguem acompanhar a realidade tecnológica.
Além disso, uma criança pode não ter Instagram, TikTok ou outra rede social e ainda passar muitas horas em jogos, vídeos, chats ou outras plataformas.
Por isso, simplesmente estabelecer uma idade e acreditar que o problema desapareceu seria ingenuidade.
Limites são importantes. Educação digital também.
A criança precisa aprender que nem tudo o que aparece na tela é verdadeiro. Precisa entender que uma pessoa desconhecida na internet continua sendo uma pessoa desconhecida. Precisa aprender sobre privacidade, exposição, publicidade, golpes, cyberbullying e os próprios limites.
E precisa, principalmente, aprender que existe vida fora da tela.
Talvez os pais também precisem fazer uma pergunta difícil
É fácil olhar para uma criança de 10 anos e dizer que ela passa tempo demais no celular.
Mais difícil é olhar para o adulto que está fazendo a mesma coisa.
Porque os filhos não aprendem apenas com aquilo que dizemos. Eles observam.
Se o pai está no celular durante o jantar, se a mãe responde mensagens enquanto a criança conta uma história, se todos estão olhando para uma tela enquanto estão juntos, a mensagem transmitida é bastante clara: o celular pode interromper qualquer momento.
Talvez a mudança comece justamente aí.
Não precisamos criar uma infância sem tecnologia. Precisamos criar uma infância em que a tecnologia tenha lugar, mas não ocupe todos os lugares.
A criança precisa do celular, quando chegar o momento adequado? Talvez.
Precisa aprender a usar tecnologia? Sem dúvida.
Precisa estar nas redes sociais aos 10, 11 ou 12 anos? Essa é uma pergunta que merece muito mais reflexão do que simplesmente seguir aquilo que os colegas estão fazendo.
E talvez seja justamente por isso que tantos países estejam começando a discutir limites.
A tecnologia avançou muito rápido. Agora, pais, escolas e governos estão tentando descobrir como fazer com que a infância não precise correr na mesma velocidade.
No Brasil, já demos dois passos importantes: restringimos o celular nas escolas e criamos novas regras de proteção no ambiente digital.
O próximo passo talvez seja mais difícil.
Aprender, dentro de casa, a colocar limites que nenhuma lei consegue colocar por nós.
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A relação das crianças com a tecnologia já faz parte da paternidade. Por isso, a Escola da Paternidade acredita que pais precisam estar preparados não apenas para dizer "desliga esse celular", mas para compreender o mundo digital em que os filhos estão crescendo.
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Porque proteger a infância também significa saber quando a tecnologia precisa entrar na vida dos filhos e, principalmente, quando ela precisa ficar de fora.