

A notícia de que uma criança de 7 anos morreu após se engasgar durante o recreio em uma escola de Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, é daquelas que nenhum pai gostaria de ler. A menina sofreu uma parada cardiorrespiratória depois do engasgo. Segundo informações divulgadas pela Prefeitura, profissionais da escola iniciaram os primeiros socorros imediatamente e o Samu foi acionado. Apesar das tentativas de reanimação, ela não resistiu. As circunstâncias do caso estão sendo investigadas.
Diante de uma tragédia assim, a reação mais humana talvez seja procurar uma explicação. E, muitas vezes, um responsável. Alguém deveria ter percebido? Alguém deveria estar olhando? A escola poderia ter feito alguma coisa diferente? Faltou treinamento? Faltou atenção? A pergunta é legítima. Afinal, quando uma criança morre dentro de uma escola, é natural que pais e sociedade queiram saber se aquilo poderia ter sido evitado.
Mas existe uma pergunta ainda mais difícil: e se, depois de todas as respostas, não houver um culpado?
Temos dificuldade em aceitar acontecimentos que não conseguimos explicar. Quando algo terrível acontece, a ideia de que poderia ter sido evitado oferece uma espécie de sensação de controle.
Se alguém errou, podemos apontar o erro. Se alguém foi negligente, podemos responsabilizá-lo. Se faltou treinamento, podemos exigir treinamento. Tudo isso é necessário quando existe uma falha.
O problema começa quando a busca por respostas se transforma automaticamente em uma busca por culpa.
Nem todo acidente tem um culpado. Nem toda tragédia acontece porque alguém foi irresponsável. Às vezes, apesar de todos os cuidados, alguma coisa acontece em segundos e produz uma consequência devastadora.
Isso não significa que uma investigação seja desnecessária. Pelo contrário. É justamente ela que deve determinar se houve falha, negligência, omissão ou se estamos diante de uma ocorrência imprevisível.
O que não podemos fazer é decidir a resposta antes de conhecer os fatos.
Talvez essa seja uma das reflexões mais importantes para os pais depois de uma notícia como essa.
À medida que os filhos crescem, é comum que nossa percepção de risco diminua. Uma criança de 7 anos já come sozinha, conversa, brinca, vai à escola e realiza muitas atividades sem a supervisão constante que um bebê exige.
Isso pode nos fazer esquecer que engasgos continuam sendo uma emergência possível na infância.
O engasgo acontece quando um alimento ou objeto obstrui parcial ou totalmente as vias aéreas. Quando a obstrução é grave, a situação pode evoluir rapidamente para perda de consciência, parada cardiorrespiratória e morte. O próprio SAMU-BH destaca que agir rapidamente é fundamental e orienta que, diante de uma emergência, o 192 seja acionado para que o médico regulador possa orientar os procedimentos enquanto a equipe se desloca.
É por isso que talvez a principal lição dessa história não seja perguntar apenas "quem errou?", mas também:
"Eu saberia o que fazer se meu filho se engasgasse na minha frente?"
E essa pergunta vale para pais, mães, professores, avós, babás e qualquer pessoa que cuide de crianças.
Em uma situação de engasgo, os primeiros minutos podem ser decisivos. O SAMU de Belo Horizonte orienta que, se a vítima estiver consciente e tossindo de maneira eficaz, deve-se incentivar a tosse e observar atentamente. Quando a pessoa não consegue tossir ou respirar adequadamente, são indicadas manobras específicas de desobstrução, de acordo com a idade e a condição da vítima. Se houver perda de consciência, é necessário iniciar as medidas de reanimação e acionar o serviço de emergência.
Mas existe um detalhe fundamental: ler sobre a manobra não é o mesmo que saber realizá-la.
Em uma emergência, o medo e o desespero podem paralisar. Por isso, aprender primeiros socorros com profissionais capacitados é uma forma concreta de preparação. E não deveria ser uma preocupação exclusiva das escolas.
Pais também precisam estar preparados.
Não para viver com medo de que algo aconteça a qualquer momento, mas justamente para saber como agir caso aconteça.
É possível defender uma escola preparada para emergências sem acusar automaticamente seus profissionais.
É possível exigir treinamento sem afirmar que alguém foi negligente.
É possível investigar as circunstâncias de uma morte sem transformar uma tragédia em tribunal nas redes sociais.
E, principalmente, é possível sentir indignação, tristeza e medo sem precisar encontrar imediatamente alguém para carregar toda a culpa.
Se a investigação identificar uma falha, ela deve ser apurada e responsabilizada. Se mostrar que os protocolos foram seguidos e que, ainda assim, uma situação imprevisível terminou de maneira irreversível, também precisamos ter maturidade para aceitar uma das coisas mais difíceis da vida: há acontecimentos que não conseguimos impedir.
Isso não diminui a dor da família. Não torna a perda menos injusta. E não significa que nada possa ser aprendido.
Talvez seja justamente aí que esteja a nossa responsabilidade como adultos.
Não transformar a morte de uma criança em espetáculo.
Não julgar sem conhecer os fatos.
Não procurar culpados apenas para aliviar a nossa própria angústia.
E, ao mesmo tempo, não desperdiçar a oportunidade de aprender.
Porque, diante de uma notícia assim, talvez a pergunta mais importante que cada pai possa fazer não seja "de quem foi a culpa?".
Talvez seja:
"Se um dia meu filho se engasgar na minha frente, eu vou saber como agir?"
Se a resposta for "não", ainda há tempo para aprender.
E talvez essa seja uma das formas mais concretas de transformar uma notícia dolorosa em prevenção.
As orientações de primeiros socorros não substituem treinamento profissional. Em uma situação real de emergência, acione o SAMU pelo 192 e siga as orientações do médico regulador.
Acreditamos que ninguém nasce sabendo ser pai. A paternidade é uma jornada de aprendizado, presença e transformação.
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Porque cuidar também é aprender. E estar preparado também é uma forma de estar presente.





