

Há homens que acordam cansados mesmo depois de dormir. Que perdem a vontade de fazer coisas que antes gostavam. Que ficam impacientes com os filhos, irritados com a companheira, distantes dos amigos e cada vez mais silenciosos.
E, quando alguém pergunta o que está acontecendo, respondem:
"É só cansaço."
"Estou cheio de coisa para resolver."
"Essa fase vai passar."
Pode ser apenas uma fase. Mas também pode ser depressão.
A depressão é uma condição de saúde mental que pode afetar qualquer pessoa. Ela não se resume à tristeza e pode envolver perda de interesse ou prazer, alterações no sono e no apetite, cansaço, dificuldade de concentração, sentimentos de culpa ou inutilidade e desesperança. Em geral, um episódio depressivo envolve sintomas presentes durante boa parte do dia, quase todos os dias, por pelo menos duas semanas.
Existe uma imagem bastante conhecida do homem deprimido: alguém abatido, chorando, incapaz de sair da cama.
Mas o sofrimento masculino pode aparecer de maneiras menos óbvias.
Um guia do Ministério da Saúde sobre saúde do homem chama atenção para situações em que homens deprimidos podem não apresentar claramente abatimento ou choro e podem expressar o sofrimento por meio de irritabilidade, nervosismo, isolamento, uso prejudicial de álcool ou excesso de trabalho.
Isso não significa que todo homem irritado, workaholic ou que bebe esteja deprimido. Esses comportamentos podem ter inúmeras causas.
A questão é outra: estamos atentos ao que pode existir por trás deles?
Às vezes, a raiva é mais fácil de admitir do que a tristeza.
O cansaço parece mais aceitável do que dizer "não estou dando conta".
Trabalhar demais pode parecer responsabilidade. Isolar-se pode ser interpretado como necessidade de espaço.
E pedir ajuda pode ser visto, por alguns homens, como sinal de fraqueza.
Talvez essa seja uma das maiores barreiras para que homens reconheçam o próprio sofrimento.
Desde cedo, muitos aprendem que precisam ser fortes, resolver problemas, proteger a família e não demonstrar vulnerabilidade.
O problema é que ninguém consegue sustentar esse personagem o tempo todo.
A própria publicação do Ministério da Saúde sobre saúde do homem aborda esse processo de silenciamento das emoções e observa que a expressão da vulnerabilidade masculina pode ser desencorajada socialmente.
Quando um homem se torna pai, essa pressão pode ganhar uma dimensão ainda maior.
Agora existe uma criança que depende dele.
Existe uma casa para sustentar.
Existe o trabalho.
Existem contas.
Existe a expectativa de ser o "forte" da família.
Mas ser pai não significa deixar de ser uma pessoa que sente medo, tristeza, insegurança ou exaustão.
Filhos não precisam de um pai que nunca sofre. Precisam de um pai que consiga reconhecer quando está sofrendo e procurar ajuda.
A saúde emocional de um homem não diz respeito apenas a ele.
Quando um pai está deprimido, seu sofrimento pode afetar a relação com a companheira, a convivência com os filhos, o trabalho e a própria capacidade de participar da vida familiar. A Organização Mundial da Saúde destaca que a depressão pode prejudicar relações, trabalho e outros aspectos da vida cotidiana.
Por isso, perceber mudanças persistentes em alguém próximo pode ser importante.
Aquele pai que deixou de brincar com os filhos.
O homem que parou de encontrar os amigos.
Quem está constantemente irritado.
Quem perdeu o interesse por coisas que antes davam prazer.
Quem parece estar sempre exausto.
Quem passou a beber mais.
Nenhum desses sinais, isoladamente, permite concluir que existe depressão. Mas podem ser motivos para uma conversa.
E talvez a melhor pergunta não seja:
"Você está deprimido?"
Talvez seja:
"Você não parece bem. Quer conversar?"
Existe uma ideia equivocada de que cuidar da saúde mental é uma atitude individual, quase um luxo para quando todas as outras obrigações já estiverem resolvidas.
Mas saúde mental também faz parte da paternidade.
Um pai que procura ajuda não está abandonando suas responsabilidades. Está tentando ficar em melhores condições para exercê-las.
A depressão tem tratamento. A Organização Mundial da Saúde aponta que existem tratamentos psicológicos eficazes e que, dependendo da gravidade e das características de cada caso, medicamentos também podem fazer parte do tratamento.
Não existe vergonha em procurar um psicólogo, um psiquiatra ou outro profissional de saúde quando algo não vai bem.
E também não é preciso esperar chegar ao limite.
Talvez uma das maiores mudanças que precisamos fazer na maneira como ensinamos meninos a serem homens seja justamente esta:
ser forte não significa suportar tudo sozinho.
Um pai pode cuidar da família e, ao mesmo tempo, admitir que precisa ser cuidado.
Pode ensinar os filhos sobre coragem mostrando que também sente medo.
Pode falar sobre tristeza.
Pode pedir desculpas.
Pode pedir ajuda.
E pode mostrar, pelo próprio exemplo, que cuidar da saúde mental não diminui ninguém.
Pelo contrário.
Talvez seja uma das formas mais maduras de exercer a paternidade.
Este artigo não serve para diagnosticar depressão. Se mudanças persistentes de humor, interesse, sono, energia ou comportamento estiverem afetando a vida de um homem, é importante buscar avaliação de um profissional de saúde. A depressão é tratável, e procurar ajuda pode fazer diferença.
Se houver pensamentos de morte ou de suicídio, a situação exige atenção imediata e ajuda profissional.
Acreditamos que ninguém nasce sabendo ser pai. A paternidade é uma jornada de aprendizado, presença e transformação.
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Porque cuidar dos filhos também passa por aprender a cuidar de quem cuida.





