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Por que os homens estão deixando a paternidade para mais tarde?

A paternidade também está mudando. Homens estão adiando a decisão de ter filhos, mas o relógio biológico masculino não para completamente. O que muda quando um homem se torna pai depois dos 40?

16/08/2026 às 19h41 Atualizada em 16/08/2026 às 19h47
Por: Escola da Paternidade
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Imagem: TungArt7 via Pixabay - Segundo levantamentos do IBGE, o homem brasileiro se torna pai pela primeira vez, em média, aos 25 anos e 8 meses (ou 25,8 anos)
Imagem: TungArt7 via Pixabay - Segundo levantamentos do IBGE, o homem brasileiro se torna pai pela primeira vez, em média, aos 25 anos e 8 meses (ou 25,8 anos)

Durante muito tempo, falar sobre idade e reprodução significava falar quase exclusivamente sobre mulheres. O relógio biológico feminino era conhecido, discutido e, muitas vezes, usado até como pressão para que elas tivessem filhos mais cedo.

Com os homens, a conversa sempre foi diferente.

A ideia de que o homem pode ser pai "a qualquer hora" ajudou a construir a impressão de que a idade masculina teria pouca importância para a reprodução. Mas essa percepção vem sendo questionada pela ciência e também pela própria transformação da sociedade.

Os homens estão adiando decisões importantes da vida adulta, como casamento e filhos. No Brasil, o dado mais direto sobre a idade paterna ainda é o da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019: entre os homens de 15 anos ou mais que já tinham filhos, a idade média quando tiveram o primeiro filho foi de 25,8 anos. No Sudeste, chegou a 26,6 anos.

O número pode parecer jovem para os padrões atuais. Mas ele esconde uma mudança importante: cada vez mais homens chegam aos 30, 35, 40 anos ainda sem terem iniciado a paternidade.

E quando finalmente decidem ter um filho, uma pergunta aparece:

ser pai mais velho muda alguma coisa?

Primeiro, precisamos falar sobre a escolha

Ter um filho mais tarde não é necessariamente um problema.

Para alguns homens, significa chegar à paternidade depois de construir uma carreira, conquistar estabilidade financeira, amadurecer emocionalmente ou encontrar uma relação na qual realmente desejam formar uma família.

Para outros, o adiamento acontece porque simplesmente não encontraram o momento, a pessoa ou as condições que consideravam adequadas.

Há também quem tenha desejado ser pai mais cedo, mas tenha enfrentado infertilidade, dificuldades financeiras, separações ou outras circunstâncias que empurraram esse projeto para frente.

Por isso, transformar a paternidade tardia em uma espécie de erro seria simplificar demais uma decisão que envolve histórias muito diferentes.

Um homem de 40 anos pode estar muito mais preparado emocionalmente para cuidar de uma criança do que estava aos 25.

Pode ter mais estabilidade, mais disponibilidade financeira e uma compreensão diferente sobre suas próprias responsabilidades.

Mas existe outro lado dessa história que merece ser conhecido.

O relógio biológico masculino também existe

Homens continuam produzindo espermatozoides ao longo da vida, mas isso não significa que a idade não provoque mudanças.

A literatura médica associa o avanço da idade paterna a alterações em parâmetros do sêmen, incluindo redução de volume, motilidade e alterações na morfologia dos espermatozoides, além de aumento da fragmentação do DNA e de novas mutações genéticas.

Alguns estudos também encontraram associações entre idade paterna avançada e maior risco de determinados problemas de saúde nos filhos, incluindo algumas doenças genéticas raras e alterações do neurodesenvolvimento. A American Society for Reproductive Medicine destaca, porém, que esses riscos acontecem de forma gradual, não existe um limite universal que transforme um homem em "velho demais para ser pai" e, em termos absolutos, o risco individual para muitos desses eventos continua baixo.

Por isso, a informação é mais útil do que o alarmismo.

Um homem de 40 anos não deve concluir que terá um filho com problemas de saúde simplesmente por causa da idade. Da mesma forma, não deveria acreditar que sua idade é biologicamente irrelevante.

A verdade está no meio.

E existe uma questão que vai além da biologia

Talvez a pergunta mais importante sobre ter filhos mais tarde nem seja genética.

É: por quanto tempo esse pai estará saudável e disponível para acompanhar o crescimento do filho?

Um homem que se torna pai aos 25 terá, em tese, uma distância geracional diferente daquele que se torna pai aos 50.

Aos 40, pode estar começando uma nova fase profissional justamente quando o filho entra na escola. Aos 50, pode estar acompanhando uma criança pequena enquanto seus amigos já estão lidando com filhos adolescentes ou adultos.

Isso não determina a qualidade da paternidade.

Mas muda o contexto.

Uma recomendação recente da ASRM chama atenção justamente para esse aspecto: ao avaliar a parentalidade em idade avançada, não basta considerar apenas os riscos relacionados aos gametas. Também é necessário pensar na saúde dos pais e no número de anos saudáveis que eles provavelmente terão disponíveis para acompanhar a criação dos filhos.

É uma questão difícil, mas legítima.

Não se trata de perguntar se um homem está velho demais para ser pai. Trata-se de perguntar como ele pretende exercer essa paternidade ao longo do tempo.

Pai mais velho pode significar pai mais preparado?

Essa é uma das grandes contradições da discussão.

A idade pode trazer riscos biológicos, mas também pode trazer experiência de vida.

Um homem mais velho pode ter maior estabilidade financeira, mais maturidade emocional e uma percepção diferente sobre o que significa cuidar de outra pessoa. A própria ASRM reconhece que a parentalidade em idade mais avançada pode trazer benefícios, embora ressalte que eles não são garantidos e que precisam ser considerados junto aos possíveis riscos.

No fim, talvez não exista uma idade ideal para ser pai.

Existe o desejo de ser pai.

Existe a capacidade de cuidar.

Existe saúde.

Existe rede de apoio.

Existe disponibilidade.

E existe, sobretudo, a disposição para compreender que uma criança não precisa apenas de alguém que consiga colocá-la no mundo.

Precisa de alguém que esteja disposto a acompanhá-la enquanto ela cresce.

A sociedade já aprendeu que não faz sentido tratar a maternidade como uma corrida contra o tempo. Talvez esteja na hora de fazer uma discussão igualmente madura sobre a paternidade.

Ser pai aos 25, aos 35, aos 40 ou aos 50 não produz automaticamente um pai melhor ou pior. Mas cada idade traz desafios, possibilidades e responsabilidades diferentes.

E talvez a pergunta mais importante não seja:

"Estou velho demais para ser pai?"

Mas:

"Estou preparado para estar presente durante toda a infância do meu filho?"

Essa é uma pergunta que vale a pena fazer em qualquer idade.

Uma conversa que os homens também precisam ter

A paternidade tardia não deveria ser tratada como tabu nem como motivo para pânico.

Mas também não deveria continuar sendo um assunto praticamente invisível.

Durante décadas, a sociedade ensinou às mulheres que sua idade importava para a maternidade e aos homens que seu relógio nunca parava.

A ciência mostra que a realidade é mais complexa.

O homem também envelhece. Seus espermatozoides também mudam. Sua saúde também importa. E, principalmente, o tempo que ele terá para acompanhar a vida do filho também merece ser considerado.

Informação não serve para dizer a alguém quando ter um filho.

Serve para permitir que homens e mulheres façam escolhas mais conscientes.

E talvez esse seja o melhor lugar para começar essa conversa sobre uma nova geração de pais.


Para saber mais

A idade paterna avançada não tem uma definição única aceita por todas as entidades médicas. Diretrizes da AUA/ASRM recomendam que casais sejam orientados sobre possíveis riscos associados à idade paterna a partir dos 40 anos, enquanto a ASRM ressalta que esses riscos aumentam de maneira contínua e que não há um ponto de corte universal.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual. Homens que planejam ter filhos e têm dúvidas sobre fertilidade ou idade paterna podem conversar com um urologista, especialista em reprodução masculina ou outro profissional habilitado.

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