Existe uma cena bastante comum na vida de quem tem filhos. A mãe recebe uma mensagem no grupo: alguém encontrou uma promoção de fraldas, outra pessoa indica uma pediatra, uma terceira pergunta qual escola as crianças estão frequentando e, em poucos minutos, surgem dezenas de respostas. Também existem grupos para falar sobre alimentação, sono, amamentação, atividades, festas e praticamente qualquer assunto relacionado à criação dos filhos.
Os pais também vivem em grupos. Têm o grupo do futebol, do churrasco, da pelada, da faculdade, do trabalho, dos amigos de infância e, dependendo da idade, até grupos diferentes para cada fase da vida. Mas existe uma diferença curiosa: quantos desses grupos são, de fato, espaços para falar sobre paternidade?
Não estou falando de um grupo criado para organizar o churrasco da turma e que, eventualmente, recebe uma foto do filho de alguém. Estou falando de um lugar onde um pai possa dizer que está exausto, perguntar se mais alguém passa por aquilo, pedir uma indicação, contar uma conquista ou simplesmente admitir que não sabe o que fazer.
Talvez os pais estejam precisando justamente disso: uma comunidade.
A paternidade pode ser solitária
Existe uma contradição na experiência de muitos homens depois que os filhos nascem. Eles passam a ter uma responsabilidade enorme, mas nem sempre ampliam sua rede de apoio na mesma proporção.
A rotina muda, o relacionamento muda, o sono muda, as prioridades mudam. Surgem preocupações que antes não existiam e decisões que precisam ser tomadas todos os dias. Ao mesmo tempo, muitos homens continuam mantendo praticamente a mesma vida social de antes, como se a chegada de um filho não exigisse também novas formas de convivência.
O problema é que nem sempre o amigo do futebol é a pessoa com quem esse pai consegue conversar sobre o medo de não estar sendo um bom pai. O colega de trabalho pode ser ótimo para falar sobre carreira, mas talvez não seja com ele que o homem queira compartilhar uma dúvida sobre o comportamento do filho. E o grupo do churrasco dificilmente será o espaço para discutir as dificuldades de conciliar trabalho, casamento, filhos e saúde mental.
Não porque esses amigos não se importem.
Mas porque paternidade precisa de espaço para ser discutida.
Falar sobre filhos não deveria ser coisa de mãe
Talvez uma das razões pelas quais os homens se organizem menos em torno da paternidade seja cultural.
Durante muito tempo, assuntos relacionados à criação dos filhos foram associados principalmente às mulheres. Mães trocam informações sobre pediatras, escolas, alimentação e desenvolvimento. Pais, muitas vezes, aparecem nessas conversas como participantes secundários.
Isso começa a mudar quando os homens percebem que também precisam de informação e apoio.
Um pai pode ter dúvidas sobre desfralde, alimentação, sono, comportamento, escola, desenvolvimento, limites, adolescência ou simplesmente sobre como se relacionar melhor com o próprio filho. Nada disso diminui sua masculinidade ou significa que ele não sabe ser pai.
Significa apenas que ninguém nasce sabendo exercer a paternidade.
E se mães descobriram há muito tempo o valor de trocar experiências entre si, talvez os pais possam aprender com essa organização.
Uma comunidade não serve apenas para resolver problemas
Existe ainda uma razão mais bonita para pais se encontrarem: compartilhar as coisas boas.
A primeira palavra do filho. A primeira vez que conseguiu andar de bicicleta. Uma apresentação na escola. Uma viagem que deu certo. Uma brincadeira inventada em casa. Uma conversa inesperadamente profunda durante o jantar.
São pequenas experiências que podem parecer banais para quem não está vivendo aquela fase, mas que significam muito para quem está.
Uma comunidade de pais não precisa ser um lugar dedicado apenas às dificuldades. Pode ser também um espaço para celebrar a paternidade, trocar ideias, contar histórias e descobrir que outras famílias estão vivendo experiências parecidas.
Porque existe uma diferença importante entre saber que outras pessoas têm filhos e conviver com outras pessoas que entendem o que significa ser pai.
Também precisamos falar das partes difíceis
Uma comunidade saudável não pode ser construída apenas sobre fotos bonitas e histórias de sucesso.
Precisamos conseguir falar sobre o cansaço. Sobre a insegurança. Sobre a dificuldade de estabelecer limites. Sobre a culpa de passar pouco tempo com os filhos. Sobre o conflito entre trabalho e família. Sobre as mudanças no relacionamento depois da chegada de uma criança.
Precisamos falar também sobre homens que não sabem como lidar com as próprias emoções, que foram ensinados a resolver tudo sozinhos e que, muitas vezes, chegam à paternidade sem referências de homens falando abertamente sobre cuidado.
Essa conversa pode ser transformadora.
Quando um pai percebe que outro também está cansado, talvez deixe de interpretar seu próprio cansaço como fracasso. Quando ouve outro homem admitir que teve medo, pode descobrir que sentir medo não o torna menos preparado para ser pai. Quando recebe uma indicação ou uma experiência de quem já passou por determinada fase, pode encontrar uma solução que sozinho levaria muito mais tempo para descobrir.
Comunidade não elimina as dificuldades da paternidade. Mas pode fazer com que ninguém precise enfrentá-las completamente sozinho.
O pai que encontra outros pais também encontra novas referências
Existe outro efeito importante nessa convivência.
Quando homens começam a conversar sobre paternidade, ampliam também sua própria ideia sobre o que significa ser pai.
Um pode aprender com o outro que participa das tarefas domésticas. Outro pode descobrir uma maneira diferente de brincar com os filhos. Um terceiro pode perceber que acompanhar uma reunião da escola também faz parte da paternidade. Outro pode começar a falar sobre saúde mental porque viu alguém próximo fazer isso.
A mudança acontece pela convivência.
Não é necessário que todos sejam iguais. Pelo contrário. Uma comunidade saudável reúne pais com histórias, idades, estilos e experiências diferentes. Alguns estão esperando o primeiro filho. Outros têm bebês. Alguns estão acompanhando crianças pequenas. Outros já enfrentam os desafios da adolescência.
Cada fase traz suas próprias perguntas.
E cada pai pode ter alguma coisa para ensinar e alguma coisa para aprender.
Talvez esteja na hora de criar o nosso próprio grupo
A Escola da Paternidade nasceu justamente da percepção de que os homens também precisam de espaços para aprender, conversar e construir novas referências sobre o exercício da paternidade.
Uma escola, nesse sentido, não precisa ser apenas um lugar onde alguém ensina e os outros escutam. Pode ser também uma comunidade em que pais compartilham experiências, dúvidas, descobertas e caminhos.
É por isso que a ideia de reunir pais não deveria ser vista apenas como uma estratégia de comunicação ou como mais um grupo de WhatsApp.
Pode ser uma rede de apoio.
Um lugar para perguntar sem vergonha, ouvir sem julgamento e descobrir que existem outros homens tentando acertar, errando, aprendendo e recomeçando todos os dias.
As mães já mostraram que existe força quando mulheres se organizam em torno das experiências da maternidade. Talvez os pais possam construir algo parecido, respeitando suas próprias características e necessidades.
Não precisamos abandonar o grupo do futebol, do churrasco ou da pelada.
Podemos continuar falando de tudo isso.
Mas talvez seja bom ter também um grupo em que a conversa comece com uma pergunta diferente:
"Como está sendo ser pai para você?"
Pode parecer simples.
Mas, para muitos homens, talvez seja exatamente a conversa que estava faltando.
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A Escola da Paternidade acredita que ninguém precisa aprender a ser pai sozinho. Informação, troca de experiências e convivência com outros pais podem transformar a maneira como homens vivem e exercem a paternidade.
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Porque quando pais se encontram, compartilham experiências e aprendem uns com os outros, toda a comunidade ganha.